Faço das palavras de David Coimbra as minhas próprias:
Ao humilhar o Juventude com uma goleada por 8 a 1, ontem à tarde, no Beira-Rio, o Inter fez mais do que conquistar o Campeonato Gaúcho de 2008. O Inter acabou com um trauma, livrou-se de um recalque, deu um grito de alívio. E era isso mesmo que o Inter queria, mais talvez do que a sua 38ª taça de campeão estadual: o Inter queria amassar o Juventude em definitivo, inapelavelmente. Eternamente. O Inter não queria bater o Juventude; queria destruí-lo. E o fez, botando abaixo tudo o que o adversário havia erguido até então na história do confronto entre os dois clubes e salgando o terreno para que nele nada mais cresça. Claro que tamanho massacre não se dá tão-somente graças à vontade de um único lado. O Juventude contribuiu para sua própria desgraça. A começar pelo vestiário. O técnico Zetti preparou uma surpresa na escalação, colocando o lateral Helder no meio-campo, retirando Leandro Cruz do time e passando Márcio Goiano para a lateral-esquerda. Para que o Inter não se desse conta da mudança, o Juventude chegou ao cúmulo de manter-se no vestiário além do necessário, quebrando o protocolo e não comparecendo para a execução do Hino Nacional. No começo, a impressão era de que a estratégia funcionaria. O lateral Élvis conseguia algumas infiltrações perigosas pela direita, e o jogo estava igual. Até o meio do primeiro tempo, nenhuma equipe havia construído lance do gol. Mas aos 18 minutos aconteceu uma jogada emblemática: o Juventude tinha a bola na intermediária de ataque pelo lado esquerdo e, em vez de tentar o ingresso na área inimiga, parou, rodou, recuou. Faltavam mais de 70 minutos para a partida se encerrar, e o Juventude fazia cera.O Inter, não. O Inter desejava o gol, embora ainda não soubesse como conquistá-lo. Descobriu aos 25 minutos: Alex cobrou falta da esquerda, Danny Morais subiu, torneou de cabeça e testou a bola como se fosse o velho Escurinho: 1 a 0. Era isso! O caminho do gol era pelo alto. Descoberta a fórmula, os jogadores do Inter passaram a levantar a bola da intermediária, sem se preocupar em ir à linha de fundo. Chegando à linha de fundo, melhor ainda. Como aos 29, quando Nilmar cruzou e Fernandão, de cabeça, fez 2 a 0. A essa altura, o Juventude havia se transformado em uma geléia emocional. O lateral-direito Élvis, um dos melhores jogadores do time, discutia com amigos e inimigos, colegas e adversários; os zagueiros Nunes e Laerte chegavam a se pechar dentro da área; Márcio Goiano rodava na lateral-esquerda, tonto, sem nem ver quem passava por ele rumo à área de Michel Alves, e todo mundo passava por ele, rumo à área de Michel Alves. Ao Inter pouco importava toda essa perturbação. A ânsia do Inter era fazer gols. E os fez. Aos 31, novamente Fernandão. Aos 37, Alex, numa falta estilo Zico, batida de chapa, colocada, fora do alcance do goleiro. Quatro a zero. Em geral, quando um time alcança tal vantagem, passa a deixar o tempo correr, a tocar a bola, a fazer a chamada “administração do jogo”. Mas o Inter não tinha a intenção de administrar coisa alguma. A idéia era outra. Era fazer com que o Juventude se arrependesse de um dia ter pisado na grama verde do Beira-Rio. Foi um prevalecimento. Um abuso. Aos quatro minutos do segundo tempo, Bustos cobrou falta da direita e Fernandão fez 5 a 0. Três minutos depois, Bustos cruzou da direita, e Nilmar desencantou: 6 a 0. Até o gol do Juventude quem marcou foi um jogador do Inter: Índio, contra, aos 11. Mas aos 32 o próprio Índio se redimiu e fez o sétimo. Faltando pouco mais de 15 minutos para o fim do jogo e do campeonato de 2008, a torcida do Juventude já tinha abandonado o Beira-Rio, os jogadores do Inter dançavam na pista atlética e a torcida cantava o título nas arquibancadas. Tudo parecia consumado. Não estava. Faltava um golpe. O último e mais cruel. O derradeiro ultraje. Aos 44 minutos, Leandro Cruz cometeu um pênalti grotesco em Andrezinho: à passagem do jogador do Inter, simplesmente ergueu a perna e acertou-lhe um pontapé no estômago. De imediato, a torcida começou a gritar o nome de Clemer. Pediam, os torcedores, que o goleiro fizesse a cobrança. Hoje em dia é comum goleiros cobrando faltas e pênaltis. Mas Clemer, não. Clemer não é um goleiro com veleidades de artilheiro. Marcou um gol quando jogava na Portuguesa, algo bissexto e eventual. E era justamente por isso que a torcida gritava por ele. Para provar que qualquer um faria gol no Juventude naquela tarde fria, cinzenta e chuvosa no Beira-Rio. Assim, Clemer saiu da sua área, atravessou o campo sorrindo e bateu o pênalti. Mas, é claro, não bateu com força, como seria de se esperar de alguém preocupado em marcar o gol. Não: foi um pênalti macio, alto, no meio da rede, enquanto Michel Alves caía desolado para o canto. Um pênalti cobrado como se fosse um tapa na cara. Um pênalti debochado.O Inter terminou o Gauchão tendo nas mãos, acima da cabeça, a taça de campeão, e nos pés, abaixo das travas da chuteira, o pescoço do Juventude.
Texto publicado no Blog do David (blog aqui).
Besitos!
